“impressionou-me muito constatar ali uma Igreja tão comprometida com seu povo e que é produtora de sentido e esperança no meio de sua crise”, disse em entrevista, quando de passagem por Havana, onde participou dos festejos dos 70 anos de fundação do Conselho de Igrejas do país.
Tveit assumiu a secretaria geral do CMI em janeiro do ano passado. Antes disso, o ele foi secretário geral do Conselho de Relações Ecumênicas e Internacionais da Igreja Luterana da Noruega, seu país de origem. Integrou a Comissão de Fé e Constituição do CMI e foi co-moderador da Mesa do Fórum Ecumênico Palestina-Israel do organismo ecumênico internacional.
O pároco norueguês pastoreou a comunidade luterana de Haram, na diocese de More, de 1988 a 1991. Trabalhou como capelão militar no seu período de serviço militar obrigatório, em 1987 e 1988. Doutorou-se pela Escola Norueguesa de Teologia, em 2002. Leia, abaixo, a entrevista que concedeu em Havana.
ALC – Que visão fica, no seu entendimento, da Conferência Ecumênica Internacional pela Paz, reunida na Jamaica de 17 a 25 de maio?
Olav Tveit - A convocação foi um evento muito importante num momento crucial, crítico para o movimento ecumênico mundial. Historicamente, o movimento ecumênico trabalhou o tema da unidade e o tema da paz com justiça. E vimos como em decorrência do tempo, mas em particular ali em Kingston, essas duas áreas de trabalho, a da unidade e a de justiça e paz, estão-se unindo cada vez mais para dar lugar a uma confluência entre esses elementos. Parece-me do que a convocação foi, precisamente, uma mostra de que existe um consenso no movimento ecumênico para o trabalho por uma paz justa.
Tivemos uma experiência muito importante ao poder escutar as diferentes expressões de como anda a questão da violência no mundo, mas, também, como as igrejas podem abordar, de maneira criativa, esse desafio e evitar, assim, uma concepção demasiado ampla do tema. No encontro da Jamaica nos limitamos ao aprofundamento das quatro áreas propostas como temas da Convocação: paz com a comunidade, paz com o mercado, paz com a terra e paz com a gente.
O mundo precisa, agora com mais urgência, das igrejas, tanto da instituição como de movimento. As dunas funções podem ajudar a construir a cultura de paz que se precisa: de abaixo para acima. Eu creio que essa Convocação vai ser um marco na história do movimento ecumênico nesse sentido.
ALC — A reunião trouxe, então, um novo desafio ao CMI e às igrejas, pois entendeu que uma década para a superação da violência não bastou.
Olav Tveit - Eu creio que o trabalho pela paz é um processo, um caminhar contínuo e ecumênico, mas, também, de abaixo para acima.
ALC — Entende que celebrar a Conferência na América Latina, no Caribe e especialmente na Jamaica, contribuiu para um amadurecimento especial do evento?
Olav Tveit - Sempre é importante onde a pessoa está localizada, o lugar onde alguém se reúne. Não estamos no ar quando nos congregamos como seres humanos. Não pode ser em abstrato, tem que ter um contexto e o fato de nos reunirmos no Caribe como espaço global, e na Jamaica em particular, proporcionou-nos três contribuições importantes.
Em primeiro lugar, uma visão crítica de como as igrejas, consciente ou inconscientemente, legitimaram a violência desde a época da escravatura e até nossos dias, numa realidade histórica que mantém vigência no presente.
Segundo, vários países, mas a Jamaica em particular, estão diante do desafio de como trabalhar para superar a violência. E ali foram mostrados vários exemplos na maneira de inserir o tema por superar a violência. Não se trata de uma discussão teórica, senão de uma prática que se concretiza na vida das pessoas. Conto um exemplo ilustrativo do fenômeno. Esperávamos a presença de um coro de jovens na reunião e não puderam participar, singelamente porque não conseguiram sair do bairro, pois estava bloqueado pela polícia em consequência de uma onda de violência.
E em terceiro e último aspecto, impressionou-me muito constatar ali uma Igreja tão comprometida com seu povo e que é produtora de sentido e esperança no meio de sua crise. As igrejas são espaços nos quais se produz a fraternidade e se compartilha a alegria, palco onde se desenvolve um companheirismo através do qual nos apoiamos mutuamente, para ser promotores da paz. Também me motivaram as diferentes expressões culturais da Jamaica que inspiraram os diferentes momentos litúrgicos do encontro.