Também cresceu o número de famílias envolvidas em conflitos, de 70.387 em 2010 para 91.735 em 2011, o que representa um aumento de 30,3%, verificado em 17 das 27 unidades da Federação brasileira. Ele foi mais expressivo na região Nordeste, que de 369 conflitos envolvendo 31.952 famílias, em 2010, passou para 495 conflitos, envolvendo 43.794 famílias no ano passado.
Em número de conflitos, o aumento mais significativo em 2011 ocorreu no Piauí, com um crescimento de 130,8%, de 13 para 30 de um ano para outro, e o número de famílias envolvidas aumentou de 611 para 1.398, o que representa um acréscimo de 128,8%.
Duas regiões tiveram declínio no número de conflitos, de 126 para 123 no Sudeste e de 41 para 37 no Sul. Apesar dessa diminuição verificada nos três Estados mais meridionais do Brasil, cresceu, contudo, o número de famílias envolvidas, passando de 1.351 para 4.010, um aumento de 196,8%! No Rio Grande do Sul, duas pessoas sofreram ameaças de morte em 2011, o que não aconteceu no ano anterior.
O Pará continua liderando negativamente a lista de assassinatos no campo. Foram 18 em 2010 e 12 no ano passado. Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Maranhão despontam no rol de Estados nas tentativas de assassinatos. O Maranhão se destaca nos casos de ameaças de morte – 116 em 2011 -, seguido do Pará, 78 pessoas ameaçadas.
O relatório da CPT aponta para uma relação direta entre o avanço do capitalismo – do agronegócio, da mineração, da extração da madeira, das grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – com o aumento e concentração da violência. O capital pratica a depredação da natureza e a violência contra os que ela se opõem.
Os dados do levantamento deixam clara essa relação: 72% dos ameaçados de morte são indígenas, quilombolas, ribeirinhos, e de comunidades tradicionais, ou pessoas que apoiam a luta em defesa dos territórios, como religiosos, missionários, advogados, militantes de movimentos sociais.
“Há uma luta declarada, que se expressa nos números da violência, contra os que são considerados entraves para o desenvolvimento e o progresso, porque seus projetos se contrapõem aos do modelo de desenvolvimento imperante. Indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pessoas de outras comunidades tradicionais não se enquadram dentro dos parâmetros de desenvolvimento capitalista e precisam deixar o caminho livre para os ‘promotores do progresso’ e para os grandes investidores”, arrola a CPT.
No ano passado foram assassinadas 29 pessoas por causa de conflitos por terra, ocorreram 38 tentativas de assassinato, 347 ameaças de morte, 89 trabalhadores e trabalhadoras foram presos e 215 agredidos. Em comparação a 2010, o número de assassinatos diminuiu em 2011, de 34 para 29, o mesmo se verificando nas tentativas de assassinato, de 55 para 38. Mas aumentou de forma considerável o número de trabalhadoras e trabalhadores ameaçados de morte: de 125 para 347.
Nos conflitos por terra, chama a atenção o aumento do número de famílias expulsas da terra, passando de 1.216, em 2010, para 2.137 em 2011, um crescimento de 75,7%. O relatório constata o mesmo no número ameaçado por pistoleiros, que passaram de 10.274 para 15.456 de um ano para outro, representando um aumento de 50,4%. “É o poder privado – fazendeiros, empresários, madeireiros e outros – voltando à liderança das ações. Esse poder privado é responsável por 50,2% das ocorrências de conflitos por terra”, constata a CPT.
As ocorrências de trabalho escravo no campo também aumentaram em 2011 em relação a 2010, em 12,7%. Entre denúncias documentadas e flagrantes resultando em libertação foram identificados 230 casos contra 204 no ano anterior. A CPT admite que os dados que ela coleta não revelam toda a realidade e reporta-se a estimativas indicando que para cada trabalhador resgatado há outros seis ou sete que permanecem na condição análoga à de escravo.
O número de trabalhadores envolvidos em situação análoga à do trabalho escravo diminuiu em 2011 em relação a 2010, de 4.163 para 3.929. Mas também foi menor o número de trabalhadores libertados, de 2.919 para 2.095. A CPT denuncia esse regime como uma situação intolerável.
“Por detrás da grandiosidade e do brilho da produção e produtividade agrícola nos diversos recantos deste país continental, que abastecem a economia globalizada com as ‘commodities’, vemos um mundo do trabalho manchado pelas cores do sofrimento, dor, ameaças, medo, indignidade, desrespeito aos direitos humanos”, afirma a professora Maria Aparecida Moraes em texto publicado no Conflitos do Campo Brasil 2011.